sexta-feira, 7 de julho de 2017

A justificação pela fé



Em Gálatas (3.1-4.31), o apostolo Paulo defende a ideia da graça – assim, com base na vida do patriarca Abraão, pai dos fiéis (Gl 3.6-18), procurou provar aos cristãos a autoridade do sistema da graça, como a fé autêntica de Cristo.
Desta maneira, baseando-se no AT, apontando, contudo, a vida de Abraão – o qual vivera antes da outorga da lei – Paulo defende e aponta a “justificação pela fé” (Rm 3.24,28).
Enfim, Paulo outorga a fé que Abraão tinha, o qual servira de alicerce para a sua obediência e, também que, em face desse alicerce, ele foi aceito por Deus, e não porque Abraão merecesse – salvação não meritória. Desta feita, ninguém pode participar do pacto abraamico, sem participar também da fé que este tinha. Assim, a lei na antiga aliança servia para definir o pecado com maior exatidão, mas não podia tomar lugar da espiritualidade genuína, o qual só pode vir por intermédio da fé – que é dom de Deus.  
Desta feita, conforme apresentado a nós, através da História da Redenção, encontrados nas sagradas escrituras, desde o começo Deus se relacionou com indivíduos e suas famílias. Como fora aprendido, o reino de Deus, como uma forma distinta e separada dos reinos do mundo, primeiro se manifestou, provisória e instrumentalmente, em Israel; depois, de forma mais ampla, universal, o reino de Deus finalmente manifestou-se na Igreja.
Desta feita, a aliança de Deus com Abraão não fora de abandonada; ao contrário, pela virtude da fidelidade e poder de Deus somente, a aliança foi levada ao seu pleno cumprimento. Porém, não podemos ignorar que esta aliança fora estabelecida e anunciada muito antes de Abraão e já havia redimido uma multidão inumerável. Entretanto, podemos concluir que a aliança de salvação das gerações de Abraão, Isaque e Jacó, não é diferente da Aliança da salvação das gerações que vieram depois (Gn 15.5-6; Ex 20.6; At 2.38-39).
Voltando a falar da visão paulina, de forma direta, Paulo desconstrói a ideia de que a salvação era única e exclusivamente para o povo judeu (Gl 3.7), sendo esta para todos os eleitos – os quais passaram pelo caminho da regeneração e foram justificados por Cristo, através da fé.
Em suma, Cristo morreu pelos eleitos, por pessoas, não por um povo em especial. Então, para Paulo, quem seriam os filhos de Abraão? A resposta é bem simples, “os da fé”, os cristãos eleitos por Deus, desde a fundação do mundo, o qual o precioso sangue de Cristo lavou pela regeneração dos pecados.
De certa forma, esta justificação nos confere a retidão divina, implantada e cultivada pelo Espírito Santo, primeiramente em forma de uma declaração forense, mas, em seguida, realizada como fato vivo. Somos moralmente transformados (Rm 3.28). Em outras palavras, a justificação é um ato de Deus e ocorre de uma vez por todos (somos justificados apenas uma vez, diferentemente da santificação que deve ocorrer sempre, até sermos totalmente transformados, tendo um novo corpo). Ela, a justificação, baseia-se sobre a missão de Cristo, incluindo seu ato expiatório (Rm 3.24). Além disso, verifica-se totalmente à revelia dos méritos humanos, como aqueles adquiridos pela obediência à lei mosaica (Rm 8.28). A justificação também é o começo para a santificação, e a semente da glorificação (Rm 5.18). Desse modo, a própria forma de vida divina é proporcionada aos homens (Jo 5.25,26).
Devemos salientar que a carta de Paulo aos Romanos tem como tese: A Justificação pela fé. Desta feita, o justo é salvo pela fé. Esta fé que liga a regeneração a justificação. Ou seja, Paulo (na carta aos Romanos) inicia o texto com uma declaração concisa sobre os três pilares do Evangelho:

ü  Primeiro, o evangelho revela a justiça de Deus savífica e poderosa.
ü  Segundo, a justiça de Deus torna-se eficaz somente pela fé e, portanto, está disponível a todos, judeus e gentios.
ü  Terceiro, esta forma de entender a justiça de Deus é coerente com as Escrituras.

O PANO DE FUNDO DA JUSTIFICAÇÃO: toda humanidade é culpável aos olhos de Deus (Rm. 1.18-3:20). E, enfim, somos justificados pela fé em Jesus Cristo (Rm 3-23 e 24). “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus”.
Em linhas gerais, a Justificação é escatológica e forense. Aliás, há a necessidade da justificação: Deus é o juiz (Gn 18.25; Dt 25.1). Deus justifica o ímpio e mantém sua justiça (Rm 4.5; 3.26). Com isso, a justificação é uma antecipação do fim dos tempos (Rm 8.33; Rm 5.9), sendo uma declaração legal a partir do sacrifício de Jesus (2Co 3.9; 2Co 5.21; Rm 3.21-26). Enfim, a justificação é somente pela fé (Rm 5.1)

“Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. (...). Logo muito mais agora, tendo sido justificados pelo sangue, seremos por ele salvo da ira. Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida” (Romanos 5.1,9 e 10).

Desta forma, a reconciliação é um ato de Deus, desfazendo a inimizade, é um presente a ser recebido. Somos, então, adotados por Ele. Assim, tornamo-nos uma nova criatura. Já a Santificação é Interior – nesta vida nunca chegaremos a perfeição total, mas devemos continuar aperfeiçoando-nos em Cristo, para ser como nosso Senhor, santo e justo.



Por fim, o justo não é um ser santo e perfeito, imune ao pecado (Pv 24:16). De igual forma, Isaías declarou que toda a justiça humana é considerada trapo de imundícia (Is 64:6), ou seja, diante do Senhor, ninguém possui qualquer elemento capaz de habilitá-lo a receber tal designação. Jesus, pelo contrário, foi o único homem essencialmente justo que viveu nesta terra. Como afirma o autor aos Hebreus 4:15, que em tudo fora tentado, mas sem pecado. Assim, seu sacrifício vicário e substitutivo em favor dos seus eleitos garantiu-lhes a regeneração e, assim, pode haver a fé, a qual os levam a serem justificados perante Deus.
Enfim, ao crermos em Jesus, Deus imputa a nós a sua justiça, declarando-nos justos diante dele. Ele é tanto juiz justo, quanto o único que pode nos declarar justos; ele é nosso justificador (Rm 3:26). Embora ninguém possa ser considerado justo (Rm 3:10-12), muitos servos de Deus receberam esta alcunha, pois foram declarados inocentes pelo supremo Juiz. Lembremos, por fim, que a salvação é dom de Deus.
Contudo, ao depararmos, então, com os escritos de Habacuque 2.4, onde lemos que “o justo viverá pela fé”, eleva infinitamente a maneira como as palavras citadas são usadas aqui. Assim, para Paulo, o crente é aquele que tem a fé correta no tocante a Cristo, o qual vive para Cristo, ou seja, a participação na vida de Deus, produzindo uma verdadeira vida de santidade. Além disso, esse viver tem sentido escatológico, ou seja, relaciona-se
à existência futura, nos lugares celestiais, na vida eterna.
Porém, ao estudarmos os capítulos 8 e 9 de Mateus, a fé em Jesus Cristo é indicada como o necessário meio de salvação; tal verdade não se dá apenas pelas diversas vezes em que a fé é mencionada em conexão com as curas (as quais tipificam a salvação), mas também pela afirmação explícita de Jesus: “a tua fé te salvou” (9.22).
Em João 1.12-14 fala-nos do “dom da filiação”, remetendo a ideia de não precisar, propriamente dito, ser descendente de sangue de Abraão (ser judeu), mas sim como um dom gratuito e sobrenatural da parte de Deus, mediante uma nova vida implantada neles pelo Espirito Santo (isto pode ser evidenciado no capitulo 3 – entrevista de Jesus com Nicodemos).

“Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”.  (João 1:13)

“Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação e da renovação do Espirito Santo (...) Para que, sendo justificados pela graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna”.  (Tito 3:5 e 7)

Por conseguinte, como já fora mencionado anteriormente, a doutrina da justificação pela fé é mais desenvolvida no Evangelho de João e principalmente nas cartas apostólicas; porém, seus fundamentos foram lançados tanto no AT quanto também nos Evangelhos sinóticos.